(Re) Ler com a Biblioteca – Vamos dar a volta ao texto
Um dia destes…
(Chega o pai, tarde a casa, do trabalho com a consciência pesada e cansada do dia.)
Homem (agressivo): Fogo mulher! Chega-se tarde a casa e o comer ainda não está pronto?
Mulher(cabisbaixo): Está quase pronto, tem calma!
Homem (elevando progressivamente a voz):Calmo estou eu! Não se nota?
(O homem sai do palco. Ouve-se a água do chuveiro a cair. A mulher continua a cozinhar.
Passados uns momentos ele regressa.)
Homem (indignado)!: Como é possível uma coisa destas? Dez horas da noite e uma pessoa
ainda não está a jantar. Sinceramente! Começo-me a fartar de certas coisas. (Ameaçador) Qualquer dia…
Mulher (interrompendo o homem): Eu tento fazer o melhor para esta casa, mas tu sabes bem que fazer um assado consome um pouco mais de tempo.
Homem: Começas a cozinhar mais cedo, olha-me esta agora…
Mulher (com voz trémula): Então as outras tarefas domésticas começas tu a resolver.
(O homem cala-se e senta-se na mesa à espera da comida. A mulher põe o jantar na mesa coma ajuda dos filhos. Marido começa a apreciar o assado e depara-se com uma peça mais queimada.)
Homem (zangado): Come-se tarde e ainda por cima comida queimada. “Da-se”! Não sabes
estar atenta ao que andas a fazer?
Mulher: Ó homem, só queimou um bocadinho daquela parte da coxa (apontando para o
frango), até parece que não há mais partes para comer! Se for preciso eu como essa, não me importo.
Homem: Desta vez escapa, mas que seja a última vez… Um dia destes…
(O esposo cala-se e tira a sua comida. Os restantes membros da família sentam-se. Um filho liga a televisão e o jantar prossegue sem falas com as personagens com um olho na televisão e outro no prato da comida. Luzes apagam-se.
Fim
Amanhã pode ser tarde
Cena I
A polícia encontra-se na rua em frente a uma casa. Noite. Som dos carros a passar e pássaros. A sargento tem um walkie talkie que a ajuda a comunicar com a central. Mulher com marcas negras no pescoço que tenta tapar com uma camisola de gola alta.
Polícia (para o walkie e talkie): Boa noite, central, daqui é a Sargento Castro da unidade 275. Encontro-me na Avenida da Liberdade na casa nº13 onde foi efetuada a queixa de barulho por parte da residente da casa nº12. Vou iniciar o protocolo.
(Sargento Castro bate à porta da casa. Ouve-se o barulho da campainha)
Polícia (num tom firme): Boa noite, senhora!
Mulher (nervosa e amedrontada): Boa noite… aconteceu alguma coisa?
Polícia: Estou aqui, pois os seus vizinhos ligaram para a esquadra revoltados com os constantes gritos e barulhos provenientes da sua habitação.
Mulher (reticente): Deve ter sido engano… Eu e o meu marido estamos apenas a jantar
(Mulher olha para trás com medo do marido e a sargento Castro repara nas manchas negras no pescoço da vítima)
Polícia (desconfiada): Não tem calor? Está uma noite tão quente…
Mulher (a tentar despachar): Sou muito friorenta.
Polícia: Já vive aqui há muito tempo com o seu marido?
Mulher: Mudamo-nos para cá há cerca de um ano.
Polícia: A vizinha…
Mulher (interrompendo a policia): Precisa de mais alguma coisa? É que eu queria voltar para a mesa…
Polícia (dando-lhe um cartão com o número de telefone da APAV): Já entendi, se precisar de ajuda pode ligar para este número
(A mulher dá uma vista de olhos)
Mulher (com medo que o marido ouça a conversa): Não é nada disso, ele ama-me muito você não percebe. Se não precisa de mais nada…
(Fecha a porta)
Cena II
Horas após a visita da sargenta. Mesma rua. Noite. Ouve-se do walkie-talkie “Alerta unidade 275, suspeita de tiroteio na rua da Liberdade peço a mais rápida verificação”.
Polícia (para o walki-talkie): Estou a 1 km da rua, unidade 275 a caminho! Repito! Sargento Castro da unidade 275 a caminho!
(Chega ao local)
Polícia (para o walkie-talkie):Sem vestígios de vítimas na rua, vou abordar a vizinhança. Peço reforços!
(Bate de porta em porta até que chega à casa onde esteve anteriormente, ninguém abre)
Polícia (irritada e assustada): Polícia! Abra a porta imediatamente! (pausa) Se estiver alguém perto da porta afaste-se por favor!
(A polícia arromba a porta e encontra a vítima deitada no chão com uma grande possa de sangue à volta)
Mulher (com dificuldades a falar): Ajude-me…
Polícia: (para a central) Uma ambulância urgente! Avenida da Liberdade nº13! Vitima baleada. Repito. Vitima baleada com vários tiros no abdómen (para a mulher) não se preocupe vai ficar tudo bem, você é forte!
Mulher (a sussurrar): Desculpe-me, estava com medo. Eu tentei ligar, mas ele apanhou-me…
Polícia (emocionada): Ssshhh não gaste energias. A culpa não é sua, ele é que é um traste.
Mulher (lavada em lágrimas): O pior disto tudo é que eu ainda o amo…
Polícia (a tentar conter as lágrimas): Você pensa que o ama, mas isso não é amor, eu sei bem do que falo eu já passei por isso também…
(A mulher dá o ultimo suspiro enquanto a sargento chora e grita por ajuda)
Cena III
A polícia encontra-se na central.Som de telefones a tocar e pessoas a falar.
Policia (colocando os auscultadores): Estou pronta, pode colocar a gravação da chamada!
(Ouve-se a mulher assustada): Ajuda, preciso de ajuda, por favor alguém (pausa) Não me faças isto, por favor, deixa-me ir (pausa) Ahhh…. (Ouve-se tiros)
(A sargento tira os auscultadores a chorar)
FIM
#011- Esposa defende o marido perante a Vizinha
(Vizinha dirige-se à casa próxima e bate à porta.)
Vizinha: Podes dar-me um copo d… (aflita) o que te aconteceu ao olho?
Esposa: Hmmm bati contra a …
Vizinha: A porta outra vez?
Esposa: O tacho estava esturrar.
Vizinha: Estive demasiado tempo numa relação com esses tachos. Há sempre uma saída.
(Carro do Marido entra na garagem)
Esposa: Era um copo de açúcar?
Vizinha: Sim, amanhã trago te um pouco de tarte. Estou a fazer a tua preferida.
(Marido acena à Vizinha, enquanto a Esposa se dirige à cozinha e volta rapidamente com um copo de açúcar. Vizinha dirige-se para casa e apercebe-se que na parte inferior do copo está escrito o horário de trabalho do Marido)
(No dia seguinte a Vizinha visita a Esposa e leva-lhe a tarte.)
(Vizinha bate à porta e depara-se com a Esposa com o braço e a perna pisados)
Vizinha: Qual a desculpa que tens para hoje? Escorregaste das escadas ou voltaste a bater contra a porta?
Esposa: Foi sem querer! Eu estava no topo das escadas com o cesto da roupa e ele estava com pressa. Ele está arrependido até me mandou flores.
(Aponta para o jarro de flores na mesa)
Vizinha: E quantas vezes ele já te pediu desculpa e voltaste a apanhar?
(Esposa olha para o chão e suspira refletindo.)
Esposa: A culpa não é dele, de todas as vezes que apanhei foi porque o mereci…
Vizinha: Nada do que tu alguma vez fizeste lhe dá o direito de te bater. Devias pedir ajuda.
Esposa: Se ele me magoar novamente irei pedir ajuda, mas ainda assim acho que ele não faz por mal.
Vizinha: Pronto, sempre que precisares, sabes onde estou e como me ligar. Mereces melhor que aquele paspalho…
(Vizinha dá um papel à Esposa com o seu número de telefone)
Esposa: Obrigada e até amanhã!
Vizinha: Se precisares já sabes. Até amanhã!
(Vizinha dirige-se até à porta e dá meia-volta)
Vizinha: A minha cunhada é policia sabes? Ela amanhã vem aqui passar o fim desemana.
Esposa: Se precisar, ligo-te.
(Vizinha acena e volta para casa)
Marido: Cheguei! O comer está pronto?
Marido: Tás a ouvir?!
(Marido chega à cozinha e vê a Esposa ainda a cozinhar. Marido empurra o jarro de flores para o chão.)
Marido: Cheguei do trabalho e ainda não tens nada pronto?
(Marido bate na Esposa e sai de casa furioso. Esposa chora enquanto liga para a Vizinha.)
Esposa (diz ofegante): Ajuda…Ajudem!
Vizinha: A minha cunhada está cá em cinco minutos…
Chega a cunhada a casa da Esposa, que liga para reforços enquanto arromba a porta.
Cunhada: Estás a salvo connosco!
(Marido chega a casa e depara-se com a policia que o prende)
Cunhada: Está preso em nome da lei.
Fim
Vizinhas
(Exterior. Casa com canteiros de flores. Duas amigas conversam.)
Jorge (gritando) – Mas quem manda aqui? Eu sou o homem da casa e tu tens que me obedecer!
Arminda – (preocupada)- Ó Aldina, mas quem está a gritar?
Aldina – Ainda bem que chegaste! São os vizinhos do lado, ultimamente andam sempre à batatada.
Arminda – Ah, a Josefa do café já me tinha dito que as coisas para aquele lado não andam boas. No outro dia, a rapariga até gritou a pedir ajuda – disse a Arminda.
Aldina – E então porque é que ela não põe os patins ao Jorge?
Arminda – Ela gosta demasiado dele e não percebe o quanto isso a está a prejudicar. Ela está cega.
Aldina – Sim, isso é verdade, mas nada justifica a violência. Não achas que deveríamos ir ver o que se passa?
Arminda (decidida) – Vamos lá, alguém tem que parar isto antes que vá para o mau caminho.
(As vizinhas foram diretas à casa do lado, bateram à porta e aparece a jovem disfarçando o seu desespero.)
Arminda- Então Patrícia? Ouvimos gritos cá de fora e estamos a ficar cada vez mais preocupados contigo. O Jorge voltou a fazer-te mal?
(Jorge observa e resolve intervir:)
Jorge (amoroso) – Sim, está tudo bem, não é amor?
Aldina (autoritária) – Podemos por favor falar a sós com a Patrícia? É sobre um assunto que não te diz respeito.
Jorge (furioso) – Não, se estás na minha casa falas à minha frente!
Arminda – Já estas a passar das marcas, achas bem o que estás a fazer? Estás a maltratar a tua mulher, isso é crime!
Jorge (agressivo) – Sai daqui e nunca mais dirijas a palavra nem a mim nem à minha mulher (Fecha a porta com uma grande violência.)
Aldina – Ele está descontroladíssimo! Temos que ajudar a Patrícia a sair desta relação tóxica!
Fim
A verdadeira face
(Marta estava em sua casa tranquila a fazer o almoço com tudo pronto, comida já a ser preparada num balcão, com aspeto de mármore, quando de repente a sua sogra bate com força à porta de madeira.)
(Sogra) -Mas o que é isto?
(Nora) -Eu não aguentava mais…
(Sogra) -Tu és uma ingrata! Como é que pudeste acusar o meu filho de violência doméstica? O meu filho!
(Nora) -Ele mudou, no início ele tratava-me como uma princesa, mas aos poucos foi havendo discussões e discussões e foi ficando cada vez mais violento…
(Sogra) -Isso é mentira, ele sempre foi um ótimo rapaz. Eu criei-o com tanto amor e carinho, não pode! Tu estavas sempre feliz quando estavas com ele. E agora fazes-lhe isso?
(Nora) -Eu achava que ele ia mudar e que a culpa era minha, que eu é que tinha cometido o erro, achava que ele me amava…
(Sogra) -Mas a culpa também não era só dele, agora também és a santa no meio disto tudo?
(Nora) -Eu queria acabar mas ele não deixava, dizia que ia acabar comigo se o fizesse por isso. Não tinha opção, aquilo não era amor!
(Sogra) -Não. O meu menino, como é que ele pôde fazer uma coisa destas! Onde foi que eu errei?
(Nora) -A culpa não é sua, você não se pode culpar por algo que ele fez. Eu sei que pode ser difícil aceitar, eu mesma não conseguia acreditar que estava a sofrer, contudo decidi parar com aquilo e seguir em frente.
Ele não vai deixar de ser seu filho, mas o que ele fez foi errado e como mãe você deve-lhe mostrar o que é certo. Aquilo foi o melhor para ele. Espero que ele melhore, pois no inicio eu amava-o…
(Nora) -Apoio-o a mudar e sabe que se precisar eu faço o que puder por ele!
(Sogra). -Muito obrigada, minha querida!
Fim

